Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

De que são feitos os sonhos?




De que são feitos os sonhos?

Do sangue,

Da essência, a mais divina.

Da pele,

Dos desejos

Os mais humanos

Da letra

Dos destinos

Mais estranhos.

Da tinta

Mais antiga

Em pergaminhos.

Da luta,

Da dureza

Dos caminhos.

Da língua dos anjos,

E da ira

Das espadas.

Da ponta

Em ferro

Das chibatas.

Do canto,

Lamentos

Das sereias.

Do pranto

Da eterna

Lua cheia.

Das cores

Da primavera

Da transparência dos cristais.

Das flores etéreas

Do submundo

Dos astros.

Do brilho

Descabido

Das estrelas.

Dos anéis

Dos segredos

Das lendas.

Da poeira

Da cauda

Dos cometas.

Do encanto

Das palavras

De um poeta.

De um concerto

Que compomos

Às duras penas.

Disso tudo

E algo mais

São feitos os sonhos.


Sandra Fonseca

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

MÃE D’AGUA



Deságuo mágoas

Em rios,

Na correnteza

Afloro, flor de ser levada

Mar de incertezas,

O canto do rio

No seu pranto

Me fala.

Segreda essa certeza:

Estou sozinha,

Ninguém me salva.

Repete como um mantra

O cântigo da perdição,

Canto do medo,

Pulsar estranho,

A solidão nas veias

Correndo lenta.

No entanto escuto,

Eu me calo,

Mas não me entrego,

O lábio treme,

O vento lambe os meus cabelos,

Antes das águas,

E quando me devoro em águas,

De corpo e alma,

Deságuo no grande oceano.

Entre as almas

Dos marinheiros,

De sonhos afogados,

E as sereias, sílfides,

As iaras,

Sou guerreira desses leitos,

Correntezas,

Nesta voragem de vida.

Entre pedras

E seixos e algas,

Sou líquida,

Infinita,

Mãe d’agua.


Sandra Fonseca

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

A coisa da palavra




Barco, coisa,

Homem,

Tudo é estático.

A pedra,

A mão,

O raio de sol.

Nada carrega o rumor,

O viço,

A respiração.

É tudo mudo,

Desprezado,

Sem a poesia,

Na palavra.

Então a ave sabe

A emoção do vôo,

A chave abre a escuridão

Na clave de sol,

Na canção.

O braço é do mar,

A onda na rebentação,

O olho chora, a maresia,

A noite morre nos braços

Do dia,

E nova a sinfonia,

Novo o sangue na palavra.

Novo o dia.

Se morre a vida,

Na dobra da esquina,

A dor do outro,

O louco.

No oco da palavra germina

Um poema.

Um poema

Como uma coisa

De asas.



Sandra Fonseca


Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Madrepérola, madrugada




A noite é alta
Imponente.
E o que me salva
O teu corpo de ave
E o teu canto de sal,
Encanto e mel,
Enquanto a manhã,
Voraz em sua luz
Real em sua cintilância
Me devolve o dia
E a sua nova dor,
Extrema e nova,
Página revisitada.

Quem te entenderá mais?
Senão o meu espanto,
Feito de querer
E de ausência.
Um olhar perdido
No tempo e na distância,
O meu olhar
No seu.
E o tempo é nada,
Se guardas a minha caixa
Secreta,
Repleta de palavras,
De pequenos gestos,
Como a minha mão
Que pousa leve
De tule e emoção
Sobre o teu dorso.

Se pousa a noite
De carne
E esplendor,
E manto,
Sonho de novo
Cavalgar-te.
Teu corpo de água,
Feito de pranto
E de asa.
Compomos poemas,
Sangramos os mares,
Tocamos as luas
Em seus mágicos quadrantes.
E somos num instante,
Estátuas dos amantes,
Alabastro e pedra,
Madrepérola,
Madrugada.

Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Bebi a lua



Bebi a lua

Entornada em pranto líquido,

Em filetes grossos

De prata.

Lívida era

A minha face,

E o vento acariciava

Os meus cabelos

De repente,

Transformados

Em hastes

Ferindo pontas de dedos.

Viajei na madrugada

Libertei fantasmas,

E encontrei

A magia das mandrágoras,

E quando cortei

As dores pela raiz,

Mais alto elas choraram.

Jogada em leitos

De rios de quimeras,

Sou afluente de tudo,

E me encontro,

Se devoro as flores

Antes dos frutos,

Se sou ave,

E aspiro o pólen,

E sorvo o néctar,

E de gritos

Eu preencho

Os meus ouvidos internos,

E nas línguas de fogo

Do lirismo,

Eu me queimo.

Domingo, 27 de Abril de 2008

SÓ MEU, ETERNO


Eu tinha um coração

Que era puro fogo

Amo a solidão,

O fundo poço

Onde tateio

Teu braço, uma perna

Um lábio morno,

A sussurrar palavras

De um verso indecoroso,

Lascivo, louco.

Sonhei encontro

No que foi saudade.

O que sou sem ti

Senão o falso,

O pseudônimo,

A invenção do verbo,

Secreto gesto,

Inominável na sua boca.

E o que era eu

Senão reflexo

De um teu qualquer desejo,

Se habitei hangares

Onde habita a lua

E a nudez patética

De algum sonho.

E ainda hei de habitar

Nalgum cenário,

Clareiras que abrirei

Entre o alto mar e o meu deserto,

Melhor que seja assim,

No único modo de ser

Só meu,

Eterno.

Sandra Fonseca

Domingo, 20 de Abril de 2008

Tambores



Se ainda há
O milagre dos tambores
E ressuscitam os mitos
Das florestas
E as almas antigas
E despertam os homens milenares
Na festa dos sentidos.

Se ainda há
O toque febril dos dedos
Na pele dos tambores,
A canção dos desejos
Mais ínfimos.
E os segredos
Correm dispersos
No rio dos ventos.

Se ainda há
Música
Em fragmentos,
No galope furioso
Dos tambores,
E as almas sem rumo
Sem etnias,
Sem encontram
Na dança do acasalamento.

Se ainda há
A magia dos tambores
Enredando
O encontro dos amantes,
No apogeu de um bolero
Alucinante.
Se ainda há canção
No ritual dos prazeres,
Nos gemidos
Na escuridão,
E os corpos já não são corpos
Em união,
Em sua convulsão,
Já são tambores!

Sandra Fonseca